Ele não é exatamente um cara simpático. Tampouco se importa em ser agradável com seus colegas. Tem momentos de delicadeza raros, e usa do cinismo como método de instigar seus interlocutores. Para ele a verdade, ou melhor, o diagnóstico correto é o fim, que justifica seus meios nada hortodoxos de investigação médica. Dentre os métodos ilícitos de House, vasculhar a casa do paciente, incitar confissões...sim, porque ele sempre parte do princípio que todo paciente mente. Que todos mentem. Seguindo o faro da mentira, as pistas e lapsos do mentiroso, o médico encontra sua amada, a verdade, ou o diagnóstico por trás da verdade.
Viciado em hidrocodona, só suporta a vida a base de analgésico tarja preta. Isto porque ele é um cara do tipo durão, e a morte lhe parece ser uma ocorrência suportável, ou ainda, o erro inevitável de sua equipe, humana equipe. House tem um lado doce, quando executa jazz ou pop em seu piano, ou quando canta George Michael tocando violão elétrico. Prefere whisky, sem gelo, of course.
Não é exatamente do tipo mulherengo, mas do tipo que carrega uma única velha e mal resolvida paixão vida afora. A vítima: sua chefe, Lisa Cuddy.
Péssimo trato com seus subordinados, irônico ao extremo com seus superiores e inoportuno com seus amigos (ele discute diagnóstico na fila do self service com seu único amigo, Wilson, ou enquanto comem, o que parece me pior), indelicado com as mulheres, ele é do tipo canalha-casca grossa, que aparenta ter no um coração, digamos, peludo. Gosta de quebrar regras e desafia hierarquias todo o tempo. Um anarquista, digamos.
Cético em relação ao ser humano e desconfiado das intenções de Deus, é avesso a qualquer religiosidade. House é tudo isto, e muito mais. O tipo de profissional capaz de virar noites e dias em busca de uma chave que desvende um diagnóstico difícil. Por isto, é um obsessivo ou seria apaixonado pela medicina? Ou é só a resolução de um mistério que está em jogo? Um Sherlock da medicina? Ou é extamente outra coisa: um homem incapaz de conviver com o insolúvel? Ou um homem que foge da sombra do irresoluto? Talvez.
Quando sem medicamentos, House pode chegar a loucura. Como chegou. Esteve internado em um hospital psiquiátrico, e - advinha? - resolveu o caso (aparentemente insolúvel) de uma paciente com autismo grave.
Assisto House compulsivamente, se puder. Dificilmente consigo (falta tempo... aquele papo, sabe?). Seus olhos profundamente azuis e sua voz rouca são o lado charmoso do médico que anda de bengala e é incapaz de mostrar fragilidade. Hugh Larie carrega o personagem há anos, com competência shakespeareana.
Me parece que House, a série, é um fenômeno de audiência no mundo todo, porque seus criadores, diretores e roteiristas perceberam logo que "todos amam House", apesar de jurarem que ele é um bruto. Brutos também amam, e isto já é domínio público. E isto parece fascinar ou desafiar nosso imaginário mais profundo.
E é por estas e outras que penso que este personagem tem a profundidade que somente personagens literários, e de de literatura da melhor qualidade - têm. Ele é complexo, carrega complexas contradições, amores e ódios, demasiado humano para ficar só papel ou morrer na tela. Ele entra em nossas vidas, sem pedir licença - como é de seu feitio - para fazer seus comentários cínicos, suas brincadeiras politicamente incorretas, e roubar a cena de todas as séries que trazem hospitais e emergências como cenário.
House é deliciosamente denso, e isto já bastaria para ancorar um série com mais de 5 anos de temporadas. Ele é irresistível, e eu não poderia simplesmente ignorar que sou apaixonada por este médico manco e genial.
1 comentários:
Me apareceram com a série (legendada) começo do ano passado, e desde então me tornei um "doente por assistir House", o que, em si, já parece um paradoxo manco... Oops! Outro paradoxo!
Já vi todos os episódios, mas outro dia voltei a ver tudo de novo, pois ele me dá umas vontades de continuar dando murro em ponta de faca - ou seja, me identifico com esse ser que o Hugh Laurie tão bem nos veste, e acredito sim (como vc escreveu), que o mantenha de maneira shakespeareana.
O melhor de House é essa situação absurda que é a própria vida, que da maneira dele é a forma que ela identifica o que ela é, e ela, a vida, definitivamente, não mente!
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