Mais do que decifrar parte do código genético que nos acompanha, é nesta fase da vida que um outro código, ou a genealogia familiar, começa a fazer algum sentido. É quando entendemos de onde viemos ou, em alguns casos, para onde vamos. E estes dois mistérios da existência começam a se dissolver.
As histórias de família que pacientemente você ouvia, sem entender, como se fossem parte de uma literatura longínqua, de um povo distante, assumem um sentido diferente.
Você passa a compreender os sentimentos e os desvarios que moveram aquela tia avó que escreveu um bilhete, pegou a estrada com um antigo amor, deixando filhos-marido-casa-cidade para trás; o egoísmo insano daquele tio avô que comprou sua esposa, uma bela polaca, e a manteve enclausurada por longos anos; a amargura sem consolo de sua avó, vestindo o pesado luto de viúva aos 30 e poucos e por anos; a aflição daquele primo de terceiro grau que apostou fazenda-casa-família na mesa de jogo e o oportunismo cínico daquele outro primo que ganhou e desfrutou da mesma aposta; o senso prático de sua bisavó que, vendo-se viúva e sozinha num Brasil estrangeiro, rapidamente se casou com o cunhado mais próximo; o desamparo de seu avô paterno, um homem grande e saudável que no luto empalideceu, adoeceu e para em seguida morrer de amor.
A descoberta do código genético sempre assusta, imagino que sobretudo a nós, mulheres. As tendências fisiológicas e patológicas parecem ser determinações de uma natureza impiedosa, que se ri de nós. E contra esta determinação não exercemos nenhum controle significativo e nem parece haver algum poder de negociação.
A desagradável entrada na lateral direita da testa que atesta a impressionante semelhança que se tem com o lado paterno da família. Ou a tendência inexplicável à melancolia quando faz frio e chove. Ou à entrega ao desconsolo etílico. Em menor grau, a mania de organização e limpeza, compulsivamente. A falta de habilidade amorosa, que sempre pode ser um - digamos assim - traço familiar. E ainda, o medo descomunal diante da perda. Tudo, em menor ou maior intensidade, parece ser herança atávica, sem registro escrito, apenas por se ouvir e saber dos testemunhos, estas histórias que ouvimos dos mais velhos.
Talvez, quando se chegar aos 70, 80, 90 tudo assuma um outro sentido, não o de um código ou de uma herança, seja cultural, genética ou social, mas - ao estilo quase resignado de Gabriel García Marquez - na velhice a gente entenda as coisas na dimensão da repetição, inexorável repetição ao qual toda família parece estar fadada.
Aos trinta e tantos você pensa no impulso para a aventura e se lembra do bisavô que foi boticário, teve comércios, morou em Minas, viveu em São Paulo, morreu não sei onde... No gosto por algumas palavras, e sobretudo no amor às palavras que te faz lembrar daquela madrinha que, apesar de ser enfermeira, devorava literatura com uma paixão febril. Pensa no não resistir a horas de bom papo na cozinha, regado à café e cigarros, aprendidos com aquela tia querida. Na saborosa forma de contar histórias, intercalando com outras menores que degusta a cada encontro com sua outra madrinha.
Mas nesta idade ainda não nos habituamos a estas coincidências.
Como é confuso o sentimento que irrompe quando nos flagramos agindo e falando exatamente como nossas mães. Depois do fato, vem uma espécie de eco, um dèja vu, seguido de um susto, e depois de um riso interno, a impressão do implacável.
Daí me parece ser apenas uma questão de tempo como entendemos toda a genealogia.
Impressionante como me pego repetindo bordões inventados por mamãe, e dela herdei a preferência cega pela verdade doída e a aversão a toda mentira, por mais bem vestida que se apresente. E o senso trágico que ela me "passou"...
Sei - por ouvir as histórias de meu avó materno - exatamente de onde vem minha tendência de esquerda (com tons anarquistas) e o excessivo zelo que tenho por tudo e todos que amo.
Sem contar que, como meus pais, sou uma economista nata, e penso que só eu mesma entendo a matemática que faço para driblar vitoriosamente dezenas de imprevistos da balança doméstica a cada mês.
A adolescência é o momento da negação. Repudiamos com unhas e dentes aquilo que nos faz semelhantes ao modelo familiar. Depois, aos 20, vem uma certa temperança, digamos assim, que é quando fazemos as pazes com nossas origens. Aos trinta, começamos a entender as narrativas em volta da mesa, os mitos e as superstições da família, as esquisitices dos já mortos, as leviandades e as paixões dos que agora parecem apenas e serenamente velhos. Pode ser que eles já tenham entendido tudo, por isto se pareçam apenas e serenamente velhos.
1 comentários:
Estou prestes a fazer 31, e não vejo a questão da mesma forma. Não com o mesmo peso. Com a exceção de cor de pele, cabelo, alguns trejeitos que fixamos inconscientemente ("você dirige igual ao seu pai" - ouvi não faz muitos dias. E eu lá me lembro de como dirigia meu pai?), as influências genéticas são proporcionais à importância e à abertura que nós mesmos damos a elas. Uma ou outra coisa se repete? Talvez sim, talvez não, quase nunca conscientemente. Mas vejo cada geração como vivente de sua própria "versão" da sociedade e da própria concepção do homem. Assim como coube a nossos ancestrais fazer uso do (às vezes limitado e até bandido) leque de opções que a vida lhes ofereceu para resolverem suas vidas, nós o fazemos.
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