quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

depois dos 30

Conversando com uma amiga, que também já passou dos 30 anos, ríamos das descobertas que só depois de algum tempo fazemos.
Mais do que decifrar parte do código genético que nos acompanha, é nesta fase da vida que um outro código, ou a genealogia familiar, começa a fazer algum sentido. É quando entendemos de onde viemos ou, em alguns casos, para onde vamos. E estes dois mistérios da existência começam a se dissolver.
As histórias de família que pacientemente você ouvia, sem entender, como se fossem parte de uma literatura longínqua, de um povo distante, assumem um sentido diferente.
Você passa a compreender os sentimentos e os desvarios que moveram aquela tia avó que escreveu um bilhete, pegou a estrada com um antigo amor, deixando filhos-marido-casa-cidade para trás; o egoísmo insano daquele tio avô que comprou sua esposa, uma bela polaca, e a manteve enclausurada por longos anos; a amargura sem consolo de sua avó, vestindo o pesado luto de viúva aos 30 e poucos e por anos; a aflição daquele primo de terceiro grau que apostou fazenda-casa-família na mesa de jogo e o oportunismo cínico daquele outro primo que ganhou e desfrutou da mesma aposta; o senso prático de sua bisavó que, vendo-se viúva e sozinha num Brasil estrangeiro, rapidamente se casou com o cunhado mais próximo; o desamparo de seu avô paterno, um homem grande e saudável que no luto empalideceu, adoeceu e para em seguida morrer de amor.
A descoberta do código genético sempre assusta, imagino que sobretudo a nós, mulheres. As tendências fisiológicas e patológicas parecem ser determinações de uma natureza impiedosa, que se ri de nós. E contra esta determinação não exercemos nenhum controle significativo e nem parece haver algum poder de negociação.
A desagradável entrada na lateral direita da testa que atesta a impressionante semelhança que se tem com o lado paterno da família. Ou a tendência inexplicável à melancolia quando faz frio e chove. Ou à entrega ao desconsolo etílico. Em menor grau, a mania de organização e limpeza, compulsivamente. A falta de habilidade amorosa, que sempre pode ser um - digamos assim - traço familiar. E ainda, o medo descomunal diante da perda. Tudo, em menor ou maior intensidade, parece ser herança atávica, sem registro escrito, apenas por se ouvir e saber dos testemunhos, estas histórias que ouvimos dos mais velhos.
Talvez, quando se chegar aos 70, 80, 90 tudo assuma um outro sentido, não o de um código ou de uma herança, seja cultural, genética ou social, mas - ao estilo quase resignado de Gabriel García Marquez - na velhice a gente entenda as coisas na dimensão da repetição, inexorável repetição ao qual toda família parece estar fadada.
Aos trinta e tantos você pensa no impulso para a aventura e se lembra do bisavô que foi boticário, teve comércios, morou em Minas, viveu em São Paulo, morreu não sei onde... No gosto por algumas palavras, e sobretudo no amor às palavras que te faz lembrar daquela madrinha que, apesar de ser enfermeira, devorava literatura com uma paixão febril. Pensa no não resistir a horas de bom papo na cozinha, regado à café e cigarros, aprendidos com aquela tia querida. Na saborosa forma de contar histórias, intercalando com outras menores que degusta a cada encontro com sua outra madrinha.
Mas nesta idade ainda não nos habituamos a estas coincidências.
Como é confuso o sentimento que irrompe quando nos flagramos agindo e falando exatamente como nossas mães. Depois do fato, vem uma espécie de eco, um dèja vu, seguido de um susto, e depois de um riso interno, a impressão do implacável.
Daí me parece ser apenas uma questão de tempo como entendemos toda a genealogia.
Impressionante como me pego repetindo bordões inventados por mamãe, e dela herdei a preferência cega pela verdade doída e a aversão a toda mentira, por mais bem vestida que se apresente. E o senso trágico que ela me "passou"...
Sei - por ouvir as histórias de meu avó materno - exatamente de onde vem minha tendência de esquerda (com tons anarquistas) e o excessivo zelo que tenho por tudo e todos que amo.
Sem contar que, como meus pais, sou uma economista nata, e penso que só eu mesma entendo a matemática que faço para driblar vitoriosamente dezenas de imprevistos da balança doméstica a cada mês.
A adolescência é o momento da negação. Repudiamos com unhas e dentes aquilo que nos faz semelhantes ao modelo familiar. Depois, aos 20, vem uma certa temperança, digamos assim, que é quando fazemos as pazes com nossas origens. Aos trinta, começamos a entender as narrativas em volta da mesa, os mitos e as superstições da família, as esquisitices dos já mortos, as leviandades e as paixões dos que agora parecem apenas e serenamente velhos. Pode ser que eles já tenham entendido tudo, por isto se pareçam apenas e serenamente velhos.

1 comentários:

Vinícius disse...

Estou prestes a fazer 31, e não vejo a questão da mesma forma. Não com o mesmo peso. Com a exceção de cor de pele, cabelo, alguns trejeitos que fixamos inconscientemente ("você dirige igual ao seu pai" - ouvi não faz muitos dias. E eu lá me lembro de como dirigia meu pai?), as influências genéticas são proporcionais à importância e à abertura que nós mesmos damos a elas. Uma ou outra coisa se repete? Talvez sim, talvez não, quase nunca conscientemente. Mas vejo cada geração como vivente de sua própria "versão" da sociedade e da própria concepção do homem. Assim como coube a nossos ancestrais fazer uso do (às vezes limitado e até bandido) leque de opções que a vida lhes ofereceu para resolverem suas vidas, nós o fazemos.