As doces expressões "obrigada", "por favor", "com licença", "como vai" e outras mais soam protocolares quando ouvidas nas ruas e, mais que isto, você provavelmente só ouvirá depois de alguns meses de convivência com alguém nesta cidade.
Trabalhei em 4 empresas diferentes e confesso que é bastante comum só haver aproximação efetiva depois de muitos dias de convivência longa e diária; no mais, o que se dá é mera formalidade, o cumprimento de ritos socialmente criados em função da manutenção de certa distância - distância segura do Outro - esta entidade que parece ser ameaçadora, sob certos aspectos.
Aliás, me parece ser uma marcante característica esta desconfiança a priori. Primeiro, o paulistano desconfia. Depois de te estudar, ele pode passar a confiar. Se chegar a esta segunda fase, as relações começam a melhor bastante e adquirem qualidades interessantes. Porque quando confia, o paulistano é intenso, denso, e afetivo.
O trânsito, e como ele é administrado por seus motoristas, traz uma agressividade diária: parece ser uma questão importante para o motorista avançar quando o sinal (finalmente!) abriu, mesmo que uma senhora que poderia ser sua avó ainda está terminando de atravessar a rua com dificuldade. A disputa por alguns segundos, ou minutos, para se estar a frente (de quê?) é imperativa em quem dirige nesta cidade.
Confesso que em quase 7 anos vivendo em São Paulo, presenciei raros momentos de gentileza no tráfego pesado e competitivo da metrópole.
Outra coisa que me incomoda horrores é, caso você esteja carregando muitas sacolas de compras, ou se estiver caminhando com alguma dificuldade, por algum motivo - do tipo: seu salto quebrou na calçada (sempre bastante irregular e esburacada), você tem duas saídas: tome um táxi ou lide com a invisibilidade absoluta: pessoas te "cortarão" a frente, e se não se desviar delas pode ser que alguém passe por cima. Tome muito cuidado, porque o fluxo parece ser irrefreável, e a massa segue obediente um maestro imaginário, que dita regras rígidas e sopra aos ouvidos: andem logo, marchem, rápido...
Este ritmo impensado domina as movimentações de pedestres e motoristas nas ruas. Uma orquestração hipnotizante rege a cidade nas horas úteis do dia.
Outra coisa: se você, por acaso ou ocasião, puxar assunto com alguém desconhecido no salão de beleza, ou na calçada do bar, prepare-se para uma situação imprevista: teu interlocutor pode te interpretar mal, achar que tem alguma "segunda intenção" nesta conversa casual. Ou você passará por incoveniente. Deve ter relação com o lance da desconfiança crônica.
Mas esta não é uma regra, assim como nada do que escrevo aqui, mas digamos assim que este é o tom da cidade.
Com fama de ser uma cidade cosmopolita e arejada, que elogia a diversidade e respeita a pluralidade, francamente na minha ótica não é bem assim que as coisas se dão: existem guetos, e a paz social parece depender desta válvula de escape, ou desta apartação que a mantém mais ou menos preservada. Deve ser por este, e por outros tantos motivos de ordem social, que São Paulo é uma cidade pouco pacífica, ou - para ser menos severa - uma cidade que não figura no topo de nenhuma lista de índices de qualidade de vida e paz urbana.
A famosa "cordialidade" brasileira me soa um tanto inadequada neste cenário.
Alguém pode argumentar que moro no centro, e que "o centro é complicado"... Me perdõe, mas o centro de uma cidade é seu coração, é o resumo de suas emoções e atitudes, é onde estão seus segredos e memórias, e também sua pulsação mais vigorosa. Então, se é pra falar de cidade, não dá para ignorar seu centro nervoso.
Ao contrário, me parece ser uma amostragem considerável do humor geral.
Ainda uma particularidade que me entristece nesta cidade que nunca pára: a tendência à experiência solitária em meio à multidão. O paulistano não nutre muito a noção de que é um corpo, um coletivo, uma sociedade. Os dramas são particulares (sejam meus ou do Outro), os problemas só me interessam quando chegam na porta da minha casa, e a cidade parece, assim, ser uma abstração vaga, uma soma de muitos eus e Outros, mas nunca o produto de nossas relações.
Lembrando Ítalo Calvino, em suas "Cidades Invisíveis": as cidades são os sonhos profundos de seus moradores, os desejos mais intensos e às vezes os mais recônditos. São os anseios de sua população e a forma melhor acabada de relação de um grupo com o mundo.
Vendo por este aspecto, que me parece sóbrio, apesar de lindamente poético, acho que São Paulo precisa deitar-se no divã, olhar para suas questões, e fazer um mergulho em si mesma, para - quem sabe - sair da análise um pouco mais humana. É o que me parece. E me perdõem os paulistanos de carteirinha, que podem discordar pacificamente de tudo que esta paulista (sim, quem nasce no interior de São Paulo é paulista; acho que ainda sou de lá, mesmo depois de 7 anos na capital) escreveu aqui.
Eu faço meus esforços para não dançar esta música.
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