*Para ler ao som de: http://www.youtube.com/watch?v=QsKHRGwe4Zk (a qualidade do áudio é boa; o vídeo, ignore.)
Semana passada passei por momentos em que achei que nada mais fazia o menor sentido. Pensei que estava dentro de um pesadelo. Pesadelo longo, que começou tenebroso no final de 2010, e - como um thriller que se alonga - prossegue janeiro e fevereiro adentro.
Primeiro, Ricardo chegou à UTI. Cá entre nós, a palavra UTI, por si só, já dá calafrios. Depois, a descoberta da cardiopatia do Idupi. E não quero continuar a narrativa que comecei na postagem "passo o ponto", mas a sequência do que se passou dali em diante é tão terrível que, para escrevê-la eu teria que relembrar sentimentos e medos que prefiro esquecer, pelo menos por ora.
Neste exato momento, estou numa mistura de ressaca deste pesadelo torturante, e ansiedade tremenda, porque à espera do resultado de um exame que só ficará pronto dentro de 5 ou 10 dias. Até lá, muita passiflora vai rolar. Muito chá de camomila, também. Sobretudo, muita nicotina e fumaça. Porque ninguém é de ferro. E eu estou muito longe de sê-lo. Algumas partes de mim parecem ser de cristal fajuto, para ser franca. Outras, tem a dureza de um diamante, se bem que bruto e fosco. Numas partes, pareço ter a resistência de um estranho material que se dobra, contorce, vira e revira, para depois voltar ao estado inicial (com algum esforço, e alguma dor, é claro). Longe de mim ser super humana; apesar que eu queria ser telepática como alguns herois - mas isto é uma bobagem que nutri na infância.
Eu sei que em meio a esta ressaca surgem culpas, perguntas (muitas sem respostas), esboços de respostas, vagas ideias, cansaço, exaustão, e muitas tentativas de entender e aprender a lidar com tanto susto, dor e medo. Perceber que alguém que você ama tem sua vida por um fio, e, pior, experimentar uma sequência de acontecimentos em que muitos que você ama estão por um fio, seguidamente, é uma prova de fogo!
Tudo ao mesmo tempo, e, portanto, uma loucura intensa e árdua. Sem intervalos para descanso, sem tréguas. Sim, eu estou quase insana. E como seria possível não ficar, eu não sei como.
Mas eu descobri que no meio deste turbilhão existe um canto - esqueçamos o olho, o centro do furacão - o canto é de onde olhamos o círculo todo. Do centro, impossível ver todos os lados. Um canto que é vazio. Para lá eu vou, com alguma agitação, quando tudo se torna intoleravelmente cheio. Cheio de dor. Neste canto, um vazio completo. E no vazio, a certeza imperiosa. Uma certeza que chega a ser incômoda - como só o canto, o vazio pode ser. Que na vida só interessam 3 coisas: a primeira (óbvia) é viver. A segunda, amar, muito e sempre que possível. A terceira, aprender com toda esta bagunça, caos, desespero e dor.
Senão, de que serviriam todo este barulho, todo este alvoroço lá, no centro, no olho do furacão. A segunda parte não tão complicada, porque existem pessoas e animais inteiramente amáveis. Encantadores e lindos, sob todos aspectos para os quais conseguimos olhar. A terceira, sim, é uma tarefa herculana.
Daí, me lembro de duas ferramentas importantes para se aprender algo com as dores: o perdão e o esquecimento. Sem perdoar os golpes rasteiros da vida e sem esquecer episódios dela - fazer rotineiramente faxinas, deletar besteiras, excluir mesquinharias e ignorar erros - é absolutamente vão tentar as duas primeiras partes.
Me lembro sempre de um livro, O Flerte (de Adam Philips), em que o psicanalista dedica páginas a versar sobre a importância do esquecimento. Afinal, nada de superheróis, nada de ser de ferro ou de bruta massa. Na verdade, sem perdoar e esquecer, insanos seríamos sempre, mesmo quando a pressão do lado de fora fosse imperceptível.
1 comentários:
Nossa Na! Que fase heim?!? Espero que tudo tenha voltado à tranquilidade. Se tiver um tempinho me ligue. Um ciclone também passou por aqui mas agora já está tudo bem. Ka
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