sento. levanto. me curvo
em reverência a tua rara vontade.
tento não pensar que amanhã é a extensão de agora
e que antes de chegar
você já terá ido embora.
me deixa no escuro das horas
enquanto as horas não esperam.
não me leve em teu bolso
não me carregue facilmente entre teus papéis
sua mão não vai me alcançar
se daqui de onde te avisto
posso também ter o cheiro do mar.
não pense que vou a toda parte
para te encontrar.
não viro as noites
nem quero os dias
que não me pertencem
e que te sobram
quando faz o cálculo lunar.
a tua vontade mesquinha
é fósforo, caixa, linha,
carteira, chaves, celular,
é notícia quente, café curto,
investimentos em queda, tv, guerra nuclear.
sento. levanto. me curvo.
penso que tua vontade é não estar.
domingo, 6 de dezembro de 2009
turvo
se sente confortável assistindo de camarote ao rídiculo dos dias
acha de bom tom vestir se assim com pompa e ironia
admira quem viceja diante do túnel estreito do poder
espera recompensa por dar o que te resta
ou sofre de alegria por participar da ingènua festa?
pegue o tempo que te pertence
a única de tuas posses válida
engole aquele riso cru de tua boca
para dentro de tuas entranhas
mexe os pés numa estranha coreografia
e espia para dentro do teu peito
onde se esconde a massa escura da tua vida.
acha de bom tom vestir se assim com pompa e ironia
admira quem viceja diante do túnel estreito do poder
espera recompensa por dar o que te resta
ou sofre de alegria por participar da ingènua festa?
pegue o tempo que te pertence
a única de tuas posses válida
engole aquele riso cru de tua boca
para dentro de tuas entranhas
mexe os pés numa estranha coreografia
e espia para dentro do teu peito
onde se esconde a massa escura da tua vida.
sexta-feira, 4 de dezembro de 2009
um hino
Estação derradeira
Chico Buarque
1987
Rio de ladeiras
Civilização encruzilhada
Cada ribanceira é uma nação
À sua maneira
Com ladrão
Lavadeiras, honra, tradição
Fronteiras, munição pesada
São Sebastião crivado
Nublai minha visão
Na noite da grande
Fogueira desvairada
Quero ver a Mangueira
Derradeira estação
Quero ouvir sua batucada, ai, ai
Rio do lado sem beira
Cidadãos
Inteiramente loucos
Com carradas de razão
À sua maneira
De calção
Com bandeiras sem explicação
Carreiras de paixão danada
São Sebastião crivado
Nublai minha visão
Na noite da grande
Fogueira desvairada
Quero ver a Mangueira
Derradeira estação
Quero ouvir sua batucada, ai, ai.
Chico Buarque
1987
Rio de ladeiras
Civilização encruzilhada
Cada ribanceira é uma nação
À sua maneira
Com ladrão
Lavadeiras, honra, tradição
Fronteiras, munição pesada
São Sebastião crivado
Nublai minha visão
Na noite da grande
Fogueira desvairada
Quero ver a Mangueira
Derradeira estação
Quero ouvir sua batucada, ai, ai
Rio do lado sem beira
Cidadãos
Inteiramente loucos
Com carradas de razão
À sua maneira
De calção
Com bandeiras sem explicação
Carreiras de paixão danada
São Sebastião crivado
Nublai minha visão
Na noite da grande
Fogueira desvairada
Quero ver a Mangueira
Derradeira estação
Quero ouvir sua batucada, ai, ai.
terça-feira, 24 de novembro de 2009
sábado, 9 de maio de 2009
onde?
onde dormiremos
se nossa cama está em chamas
e nossos lençóis são brasa acesa?
onde passaremos os próximos tempos,
se nossa casa foi destruída
e nossos vizinhos deixaram a vila?
onde estaremos quando o sol nascer de novo,
se o que vejo são folhas secas
espalhadas pelo chão rude
de uma floresta perdida?
aonde irão nossos filhos,
se a casa é o fogo,
o fogo se alastra
em labaredas que tocam o céu?
se nossa cama está em chamas
e nossos lençóis são brasa acesa?
onde passaremos os próximos tempos,
se nossa casa foi destruída
e nossos vizinhos deixaram a vila?
onde estaremos quando o sol nascer de novo,
se o que vejo são folhas secas
espalhadas pelo chão rude
de uma floresta perdida?
aonde irão nossos filhos,
se a casa é o fogo,
o fogo se alastra
em labaredas que tocam o céu?
segunda-feira, 4 de maio de 2009
ampulheta
quando deixarmos este lugar
ninguém se lembrará de nós dois
e daquilo que ora fizemos.
ninguém cantará nossa canção
e nem acenderá nossas luzes apagadas.
o que foi feito, então, será nada.
por isto, amanhã,
antes de acordar,
de olhos ainda fechados
pense no que o dia trará;
pense nas asas do anjo que irá nos levar,
e imagine quantas palavras nunca ditas
serão atribuídas a nossa autoria,
e que nossos rastros serão dizimados pelo tempo.
a cidade deixará tuas imagens para trás,
como mãe que rejeita seus filhos.
as ruas não se lembrarão de seus passos,
e nosso vôo não terá a lembrança
curta dos aeroportos.
quando deixarmos este lugar,
o vento levará as cinzas
de nossos dias para o mar.
ninguém se lembrará de nós dois
e daquilo que ora fizemos.
ninguém cantará nossa canção
e nem acenderá nossas luzes apagadas.
o que foi feito, então, será nada.
por isto, amanhã,
antes de acordar,
de olhos ainda fechados
pense no que o dia trará;
pense nas asas do anjo que irá nos levar,
e imagine quantas palavras nunca ditas
serão atribuídas a nossa autoria,
e que nossos rastros serão dizimados pelo tempo.
a cidade deixará tuas imagens para trás,
como mãe que rejeita seus filhos.
as ruas não se lembrarão de seus passos,
e nosso vôo não terá a lembrança
curta dos aeroportos.
quando deixarmos este lugar,
o vento levará as cinzas
de nossos dias para o mar.
domingo, 5 de abril de 2009
de braços abertos
te espero no centro do mesmo jardim
onde mordeu minha bochecha
e me jurou vingança.
você vociferou, chorou raiva,
e amargou a derrota
do final do passeio.
(te puxaram pelo braço,
te levaram para casa.)
eu triunfei com a crueldade {de toda criança}
e a latejante marca no rosto.
sentado no banco de concreto
me esperava um pai que perdi
num destes passeios ao jardim.
(disse que voltava e nunca voltou.)
estou no jardim e te espero.
você nunca terminou a mordida,
a briga do primeiro ódio,
do primeiro amor.
te espero no centro do mesmo jardim
onde mordeu minha bochecha
e me jurou vingança.
você vociferou, chorou raiva,
e amargou a derrota
do final do passeio.
(te puxaram pelo braço,
te levaram para casa.)
eu triunfei com a crueldade {de toda criança}
e a latejante marca no rosto.
sentado no banco de concreto
me esperava um pai que perdi
num destes passeios ao jardim.
(disse que voltava e nunca voltou.)
estou no jardim e te espero.
você nunca terminou a mordida,
a briga do primeiro ódio,
do primeiro amor.
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